Ponto de vista: Projeto FACT

Projeto FACT: uma abordagem de sucesso para solucionar necessidades de saúde pública

Jean-René Kiechel, consultor sênior para fármacos e gerente de produtos
[Junho 2015]

O início deste milênio presenciou uma mudança radical na forma de tratamento da malária. Em 2001, em resposta à crescente resistência à cloroquina, a OMS recomendou a substituição dessa monoterapia por terapias de combinação à base de artemisinina, conhecidas como ACTs. O Grupo de Trabalho Medicamentos para Doenças Negligenciadas da Campanha de Acesso de MSF e da OMS-TDR se reuniu com especialistas e outros stakeholders de países endêmicos  e não endêmicos para formar o consórcio Terapias Combinadas com Dose Fixa, ou FACT (Fixed-Dose Combination Therapies) em 2002, com projetos posteriormente transferidos para a DNDi quando esta foi criada em 2003. O consórcio visava desenvolver Combinações de Dose Fixa (FDCs) de dois ou mais ACTs recomendados pela OMS, combinando artesunato (AS) – o componente à base de artemisina – com amodiaquina (AQ) ou mefloquina (MQ). Esses tratamentos da malária foram destinados para uso por pacientes na África, Ásia ou América Latina, tendo sido especificamente desenvolvidos com esse propósito em mente. Os medicamentos deveriam ser acessíveis, com embalagens e fórmulas claras e autoexplicativas, úteis para todas as idades, incluindo crianças na primeira infância, e estar prontos para suportar ambientes tropicais.

Liderado pela DNDi, os membros da equipe do projeto FACT inicialmente participavam principalmente como voluntários, vindos de setores industriais, universitários e de institutos de pesquisa em todo o mundo, incluindo notadamente especialistas de países endêmicos. Consultores eram trazidos esporadicamente para ajudar na solução de problemas específicos. As necessidades dos pacientes, especialmente das crianças, eram mantidas sempre em destaque: crianças africanas com menos de cinco anos respondiam pela maioria das mortes causadas pela doença. As características dos tratamentos a serem desenvolvidos foram discutidas em consulta com especialistas e logo no início definidas através de Perfis de Meta de Produtos, com o progresso monitorado de forma completa e regular em reuniões de análise duas vezes ao ano e reuniões de equipes locais.

Apesar das diferenças de culturas, especialidades e organizações, superamos o desafio de montar uma equipe de membros espalhados em diferentes continentes, porém com uma visão em comum. As etapas iniciais do desenvolvimento farmacêutico tomaram mais tempo do que normalmente tomariam em um ambiente industrial e trabalhar com recursos limitados, tanto em termos de pessoal quanto de fundos, fez com que a equipe precisasse ser flexível, porém, isso levou a soluções inovadoras para os problemas. Já existiam dados clínicos disponíveis sobre componentes de medicamentos individuais, provenientes de seu uso em combinações soltas ou cartelas, porém, havia a necessidade de dados sobre segurança e eficácia das novas combinações em doses fixas em diferentes populações de pacientes, que foram usados como evidência para fins de registro em países endêmicos.

No Brasil, o ASMQ FDC foi desenvolvido com a empresa farmacêutica estatal Farmanguinhos, da Fiocruz. Um grande estudo realizado em colaboração com o Ministério da Saúde, no Estado do Acre, na Amazônia, um dos focos da malária falciparum, atraiu imenso interesse local, inclusive dos mais altos níveis políticos do estado. Isso não somente demonstrou a utilidade do ASMQ no combate à malária, como também fortaleceu o sistema local de gestão da malária e mostrou que era possível o diagnóstico e o tratamento precoces de pacientes vivendo em comunidades remotas.

Para o ASAQ FDC, a DNDi e a Sanofi desenvolveram um extenso programa de monitoração da segurança e eficácia do tratamento, fornecendo dados para respaldar o registro em países endêmicos. Estudos foram realizados em adultos e crianças, englobando desde testes em pequena escala (investigando o uso repetido e de longo prazo do ASAQ em áreas de alta endemicidade, onde pacientes apresentam múltiplas infecções da malária em um curto período) a testes em grande escala, com monitoração do uso em situações reais. Esse Plano de Gestão de Riscos foi o primeiro de seu tipo apresentado à OMS. Os resultados do maior desses testes, realizado na Costa do Marfim pela Sanofi com o MMV e envolvendo 15.000 pacientes, são esperados para o final deste ano.

O desenvolvimento clínico, contudo, não representa o fim da história e enormes esforços contínuos têm sido necessários para garantir que os pacientes possam ter acesso a esses tratamentos, desde a obtenção da qualificação prévia da OMS e do registro em países endêmicos até a defesa de uma mudança de política e a garantia de suprimentos suficientes. Após um acordo de não exclusividade com a Sanofi para produção do ASAQ FDC, foi iniciada a produção por outras empresas fabricantes de genéricos, ampliando o mercado e aumentando sua distribuição: isso também facilitou a transferência de tecnologia para a Zenufa, que fabricará o tratamento na Tanzânia. Além disso, o compromisso da Sanofi com a produção do ASAQ FDC pelo custo acrescido de uma pequena margem levou a uma redução no preço de outros ACTs.

O desenvolvimento bem-sucedido do ASAQ e do ASMQ, dois ACTs de dose fixa ministrados como dose diária única de 1 ou 2 comprimidos por 3 dias, demonstrou que o modelo de desenvolvimento posto em prática pela DNDi funciona, com os dois tratamentos registrados para uso em países endêmicos em todo o mundo. Até hoje, mais de 400 milhões de tratamentos de ASAQ FDC foram distribuídos em todo o mundo, incluindo produtos desenvolvidos por fabricantes de genéricos, e mais de 800.000 tratamentos de ASMQ FDC. Esses projetos foram oficialmente repassados para a equipe de Gestão de Acesso e Produto do Empreendimento de Medicamentos para a Malária, ou MMV (Medicines for Malaria Venture), em maio deste ano. O MMV é parceiro de longa data da DNDi e montou o maior portfólio já reunido para a malária, garantindo a disponibilidade futura desses tratamentos para os pacientes nos próximos anos.

 
Jean-René Kiechel, DNDi Genebra