Diretor do Programa de Chagas da DNDi esclarece mitos e verdades sobre a doença

14 de dezembro de 2018

De tempos em tempos, a doença de Chagas ganha as páginas dos jornais. Descoberta há quase 110 anos pelo médico brasileiro Carlos Chagas, a doença é vista por muitos como coisa do passado. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde estima que ela afeta mais de 6 milhões pessoas, causando cerca de 14 mil mortes por ano. Endêmica em 21 países da América Latina, a doença hoje está presente também nos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália. E embora a doença esteja associada a áreas rurais, hoje dois terços das pessoas com a doença de Chagas vivem nas cidades.

 

Nesta entrevista, o Dr. Sergio Sosa Estani, diretor do programa de Chagas da DNDi (iniciativa medicamentos para doenças negligenciadas) esclarece mitos e verdades sobre a doença de Chagas.

Como a doença de Chagas é transmitida?

A doença de Chagas é transmitida de quatro formas principais. A forma mais comum é pelas fezes infectadas dos insetos conhecidos no Brasil como “barbeiros”. O barbeiro vive normalmente em rachaduras nas paredes de casas de adobe e tijolo de barro e, quando picam uma área da pele, ele defeca ao lado da picada. Quando a pessoa coça a região, parasitas presentes nas fezes entram na corrente sanguínea. A doença também pode ser passada de uma mãe infectada ao seu bebê, durante a gestação.  Além disso, a doença também pode ser transmitida por transfusões de sangue ou transplantes de órgãos, mas hoje esses casos são mais raros graças a um melhor controle nos bancos de sangue. Por fim, a infecção também pode ocorrer por meio da ingestão oral de alimentos contaminados com barbeiros infectados ou suas fezes. Foi esse o caso noticiado esta semana, quando 14 pessoas foram infectadas após toma um suco contaminado.

 

Os casos de transmissão por meio de ingestão de alimentos contaminados sāo comuns?

Esta forma de transmissão ocorre com mais frequência na região amazônica, embora nāo esteja restrita a essa região. Isso de deve ao fato de que os vetores (ou barbeiros) infectados estão presentes no ambiente, infestando frutas silvestres que costumam ser usadas para o consumo por meio da elaboração de sucos caseiros.

 

Que cuidados devem ser tomados para evitar esta forma de transmissão?

Para evitar esta forma de transmissão, é importante seguir as recomendações gerais de boas práticas no manejo de alimentos. O processo de pasteurização também elimina os parasitas, portanto alimentos pasteurizados sāo seguros para consumo do ponto de vista da doença de Chagas. Esse é o caso, por exemplo, do açaí comercializado na maioria das lojas de sucos e lanchonetes, que geralmente já passou por um processo de pasteurização.

No Brasil, devido a ações de controle do vetor, muitos estados endêmicos já foram certificados por ter interrompido a transmissão por essa via. Entretanto, ainda há focos na região nordeste e centro-oeste, bem como na região amazônica, onde a principal via de transmissão, gerando novos casos agudos, é via oral.

 

O que é um caso agudo?

Logo que é infectada, a pessoa passa por uma fase aguda, quando há um grande número de parasitas no sangue. Ainda assim, a maioria das pessoas não apresenta nenhum sintoma. Quando sintomas ocorrem duram cerca de dois a quatro meses e podem incluir erupções de pele, e nódulos inflamatórios, febre, dor de cabeça, gânglios linfáticos aumentados, náuseas, diarreia, vômito e dificuldade para respirar. A fase aguda muitas vezes passa despercebida por não apresentar sintomas, ou por seus sintomas poderem facilmente ser confundidos com aqueles de outras doenças. Quando acontece a transmissão oral, a quantidade de parasitas no sangue durante a fase aguda costuma ser muito alta gerando formas graves da doença.

 

O que acontece após a fase aguda?

Após a fase aguda, as pessoas infectadas entram em uma fase crônica indeterminada, que pode durar anos ou até décadas. Nessa fase, o parasita continua presente no sangue, mas nāo há qualquer sintoma. Entretanto, com o tempo, cerca de 1 a cada 3 pessoas infectadas começa a desenvolver complicações decorrentes da doença. As mais comuns são danos ao coração, que podem resultar em morte súbita ou insuficiência cardíaca progressiva. Em um número menor de pacientes, a doença causa o alargamento do trato e órgãos gastrointestinais e transtornos motores gastrointestinais. Os sintomas debilitantes e irreversíveis da doença de Chagas crônica podem impedir as pessoas de trabalhar e ser economicamente ativas, afetando não só aqueles que tem a doença como também suas famílias e comunidades.

 

A doença de Chagas tem cura?

Existem tratamentos que são eficazes para eliminar o parasita do sangue, ou controlá-lo, e dessa maneira eliminar com sucesso a infecção. O tratamento também contribui para a prevenção da doença, uma vez que previne a transmissão de mãe para filho, se as mulheres forem tratadas antes da gestação.

 

Como é o tratamento?

Existem dois medicamentos usados para tratar a doença de Chagas, ambos foram descobertos há meio século: benzonidazol e nifurtimox. O tratamento com benzonidazol, o mais usado, dura 60 dias. Durante todo o tratamento, os pacientes devem ser acompanhados pelo profissional de saúde para que os efeitos adversos, caso apareçam, sejam manejados adequadamente. O tratamento é particularmente eficaz na fase aguda, portanto é muito importante que seja dada a essas pessoas que foram infectadas por meio da ingestão do suco, conforme noticiado essa semana, a possibilidade de tratamento.

 

Quais sāo os efeitos adversos mais comuns?

No caso do benzonidazol, os efeitos adversos mais comuns sāo reações alérgicas na pele ou problemas digestivos. Pode ocorrer também, embora com menos frequência, sensação de irritação nos pés ou mãos por neurite periférica. No caso do nifurtimox, pode ocorrer irritação, perda de peso e problemas digestivos. Todos esses efeitos adversos podem ser controlados com acompanhamento médico adequado.

 

Existem novas perspectivas de tratamento para a doença?

A doença de Chagas, como outras doenças tropicais negligenciadas, sofre as consequências da lógica de lucro que rege o mercado global de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos. Foi para preencher a lacuna em inovação que caracteriza essas doenças que a DNDi, iniciativa de medicamentos para doenças negligenciadas, foi criada em 2003. A DNDi trabalha com parceiros públicos e privados para desenvolver novos medicamentos, testes de diagnóstico, e outras ferramentas para doenças negligenciadas, inclusive a doença de Chagas. Para Chagas, trabalhamos no curto e médio prazo para aprimorar os tratamentos existentes, testando novos regimes de tratamento ou novas combinações, e também a longo prazo, para descobrir moléculas que possam se tornar novos medicamentos no futuro.  Nossa esperança é poder oferecer às pessoas que vivem com a doença de Chagas tratamentos melhores, mais curtos, mais eficazes, mais toleráveis, e assim contribuir para eliminar de vez a doença com problema de saúde pública.

 

Photo credits: Felipe Abondano-DNDi