Superando a negligência da doença de Chagas

Levando atenção aos pacientes de Chagas em uma região remota da Colômbia

Em meio as montanhas, florestas e campos dos Andes Centrais da Colômbia, encontram-se comunidades pequenas e remotas onde a doença de Chagas ainda causa grande impacto. Mais de 400.000 colombianos vivem com este parasita assassino, e mais de um em cada quatro deles sofre de cardiopatia chagásica.

São nessas comunidades rurais nas quais a doença de Chagas é mais endêmica, onde proliferam os insetos vetores da doença, os barbeiros, ou “pitos”, como são chamados na Colômbia.

Embora o governo colombiano tenha conseguido controlar a população de barbeiros em muitas localidades, apenas 1% dos pacientes tem acesso ao teste diagnóstico e ao tratamento contra a doença.

Mas o vento da mudança começa a soprar nas terras montanhosas na Colômbia, e isso começa exatamente nestas regiões mais remotas.

Apesar de décadas de conflito armado e instabilidade social, a Colômbia já deu passos importantes para garantir atenção à saúde de seus cidadãos. As ações incluem um novo projeto-piloto para aumentar o acesso ao tratamento contra a doença de Chagas. Lançado em 2015, está sendo implementado em cinco comunidades de quatro departamentos na Região Oriental da Colômbia, nos departamentos de Arauca, Casanare, Santander e Boyacá, áreas altamente endêmicas em doença de Chagas.

Cidades do projeto de acesso de Chagas (Clique nas cidades para mais informações)

 

A Região Oriental da Colômbia foi profundamente impactada pelos anos de conflito armado. Devido à sua localização em meio às montanhas, estando próxima à Venezuela e com fácil acesso a outras regiões da Colômbia, as guerrilhas e os grupos paramilitares foram muito ativos aqui. Embora a violência tenha diminuído, as comunidades enfrentam outros desafios, inclusive a doença de Chagas.

O projeto-piloto, desenvolvido pelo Ministério de Saúde e Proteção Social em parceria com a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, pelas siglas em inglês de Drugs for Neglected Diseases initiative) e outras organizações, envolve um novo modelo de atenção à saúde centrado no paciente, que engloba características como:

  • Simplificação e aceleração do processo de diagnóstico por meio de um novo teste que pode ser realizado rapidamente no próprio centro de saúde local;

  • Disponibilização do tratamento nas unidades de atenção primária, mais próximas à moradia dos pacientes; e

  • Capacitação de equipes de saúde locais nas diretrizes terapêuticas mais atualizadas para a doença de Chagas.

Abaixo, algumas das histórias das pessoas, pacientes e profissionais de saúde envolvidos neste projeto:

Uma família em meio a doença de Chagas

A família Riaño

 

Yolendi Riaño vive a cerca de duas horas e meia de carro do pequeno povoado de Nunchía, no departamento de Casanare. Nos anos 1980 e 1990, a região foi ocupada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), tendo sido posteriormente tomada por grupos paramilitares. Atualmente, a região se recupera dos anos de violência que levou a  um fluxo intenso de deslocamento interno.

Yolendi, de 29 anos, divide o quarto de dormir com o marido, o pai e cinco filhos, em uma casa pequena com cozinha e depósito de grãos. Descobriu ser portadora da doença de Chagas em 2016, quando já estava grávida do quinto filho.

A doença de Chagas é altamente endêmica nesta região. Muitos vizinhos de Yolendi estão infectados, além de dois de seus filhos. Ximena, a mais velha, de 12 anos, conseguiu tratamento e agora leva uma vida normal.

Ebaneida em casa, procurando barbeiros em seus esconderijos

Já a filha Ebaneida, de 10 anos, conta que foi infectada no chuveiro e teve reações mais fortes. “Senti uma picada, e depois coçava,” ela lembra. Com olhos inflamados, ela teve febre e calafrios, sentia como se o corpo inteiro estivesse prestes a explodir. Depois de três dias com esses sintomas, a menina foi levada para o hospital, onde foi diagnosticada e tratada para Chagas.

Ebaneida não pôde frequentar a escola no tempo em que esteve doente e em tratamento e acabou perdendo o ano escolar. E com o dinheiro sendo tão curto para esta família, Yolendi não pôde levar a filha no pediatra para uma consulta de controle. Mas a própria Ebaneida já é uma especialista em Chagas: sempre de olho nos barbeiros, faz buscas na casa regularmente.

Para Yolendi, a aflição ainda não acabou. Ocupada com o cuidado dos filhos e amamentando o mais novo, ela ainda não conseguiu ter acesso ao tratamento. Quando disse ao marido que precisava viajar a outra comunidade para o tratamento, ele desconfiou e perguntou se estava tendo um caso... o que criou outra barreira para Yolendi.

Mas ela diz que quando parar de amamentar o filho vai buscar tratamento, e esse pensamento acalenta a esperança de um futuro melhor. “É importante conseguir o tratamento, ter mais saúde e levar uma vida normal”, ela diz.

O projeto-piloto de atenção aos pacientes de Chagas tem como foco exatamente facilitar o diagnóstico e tratamento da doença de Chagas para famílias como as de Yolendi.

Parte da mudança

Uma bacteriologista numa pequena cidade contra a doença de Chagas

Maria Mercedes é bacteriologista na pequena cidade de Támara, situada em uma área rural da Colômbia conhecida pela produção de café. Em novembro de 2016, ela assumiu a coordenação do laboratório do Centro de Saúde San Miguel. Sua rotina diária consiste em receber pacientes e analisar amostras de sangue para o diagnóstico de diversas doenças.

Antes do início do projeto, em março de 2017, tudo era diferente. Para conseguir fazer os testes, os pacientes eram obrigados a viajar até a sede do departamento – uma viagem cara, que poucos podiam pagar. Além de levarem meses para receber os resultados.

"Desde então, tudo mudou depois que os treinamentos começaram. A vida do paciente já ficou muito mais fácil. A amostra de sangue é coletada aqui mesmo, e nós a enviamos para o hospital em Yopal, onde é processada. Hoje, o paciente tem consulta com o médico e faz a coleta no laboratório no mesmo dia. Desta forma, em menos de 15 ou 20 dias, ele já recebe o resultado do teste.”

A principal rua de Támara

Dra. Maria Mercedes acrescenta também que com o novo projeto, o paciente já recebe o tratamento no próprio centro de saúde. Além disso, com o apoio da RedSalud, uma importante rede privada de serviços de saúde no país, ficou muito mais fácil o desenvolvimento de testes complementares para Chagas.

Dra. Maria Mercedes é natural de Recetor, outro município em Casanare onde também são comuns os barbeiros e a doença de Chagas. O projeto-piloto ainda não foi implantado em Recetor, mas ela espera que um dia possa ser estendido para todo o departamento de  Casanare, e posteriormente para a Colômbia como um todo.

O caminho para superar a negligência

Coordenando o projeto de acesso

No centro do projeto-piloto encontra-se o Dr. Rafael Herazo, da DNDi, que trabalha em conjunto com a Secretaria de Saúde de Casanare. Movido pelo aspecto mais humano da doença de Chaga, atualmente Dr. Rafael viaja regularmente aos municípios para treinar as equipes de saúde e garantir que tudo funcione bem. Muitas vezes acompanha as consultas, ajudando tanto os médicos quanto os pacientes tirando dúvidas sobre a doença.

Em cada centro de saúde que visita, todos participam do projeto: médicos, demais membros das equipes de saúde, coordenadores de laboratórios e os agentes responsáveis pelo controle do vetor.

Agora essa dedicação, juntamente com o compromisso e o trabalho das pessoas do Ministério da Saúde, das Secretarias de Saúde e de outros aliados, como o Instituto Nacional de Saúde, começa a dar frutos. Em apenas um ano, aumentou em 1.455% e 1.129% o número de pacientes testados para Chagas nos municípios de Nunchía e Támara, respectivamente.

Além do diagnóstico simplificado e do treinamento das equipes, em breve o projeto lançará uma estratégia de extensão comunitária para promover o diagnóstico precoce e tratamento. Infelizmente ainda há uma ideia comum entre médicos e pacientes de que o tratamento é desnecessário, ou que só está disponível para crianças. O plano de extensão ajudará a conscientizar os  pacientes sobre a doença, reduzir o estigma e  o medo e, claro, informá-los sobre as alternativas terapêuticas.

O Centro de Saúde de Nunchia

Para tornar o projeto-piloto uma realidade, a DNDi vem trabalhando em conjunto com outros parceiros importantes, como a Coalizão Global de Chagas, a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS/OMS), a Fundação Mundo Sano, indústria farmacêutica, academia, associações de pacientes, ONGs e  governos e autoridades sanitárias em países tanto endêmicos quanto não-endêmicos.

Dr. Rafael olha para o futuro com esperança, com a expectativa de expandir o projeto para o país inteiro, e depois para toda a América Latina. O projeto-piloto da Colômbia é apenas a primeira parte de um plano mais amplo, regional, que está sendo desenvolvido pela DNDi junto com seus parceiros para ampliar o acesso ao cuidado para os pacientes de Chagas a partir do fortalecimento das capacidades locais e o apoio aos esforços dos governos para consolidar políticas e incrementar respostas na saúde pública.

    

Superando a negligência da doença de Chagas

Fotos: Felipe Abondano