Dia Mundial de Chagas: mobilização pelo fim do silêncio sobre a doença chega à AMS

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Em 2002, Eduardo Galeano (1940-2015) escreveu que a doença de Chagas “matava calando aqueles que já eram condenados ao esquecimento”*. A espiral de silêncio e invisibilidade a que se refere o escritor uruguaio torna-se evidente quando se faz uma revisão estatística sobre a enfermidade. Estima-se que 6 a 8 milhões** de pessoas estejam infectadas apenas na América Latina, porém nenhum sistema de saúde da região apresenta dados precisos sobre onde elas vivem, que tipo de tratamento recebem ou como evoluem nos estágios crônicos da doença.

Trata-se de uma história marcada pela negligência, mas que pode ganhar capítulos mais promissores a partir da próxima edição da Assembleia Mundial da Saúde (AMS), caso os países-membros votem pela inclusão do Dia Mundial das Pessoas afetadas pela Doença de Chagas no calendário de saúde global. Liderada pela Federação Internacional de Associações de Pessoas com a Doença de Chagas (FINDECHAGAS), a proposta tem por objetivo chamar a atenção de governos e tomadores de decisão quanto às barreiras no acesso à detecção e ao tratamento da enfermidade. Não por acaso, a data escolhida pela entidade foi 14 de abril, que marca o aniversário do primeiro diagnóstico da doença, realizado há 110 anos pelo médico brasileiro Carlos Chagas.

“É chegado o momento de romper o silêncio e a obscuridade que rodeiam quem tem a doença de Chagas. Um dia mundial é a oportunidade de nos colocarmos de pé e pedirmos a palavra”, afirma Elvira Hernandez, representante da FINDECHAGAS.  

A mobilização pelo dia mundial de Chagas se espalhou na rede sob a forma de petição online, que já ultrapassa 10 mil assinaturas e será entregue à Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a Assembleia Mundial, em Genebra (Suiça). A empreitada teve o apoio de inúmeras instituições parceiras ao redor do mundo, dentre elas a Coalizão Global pela Doença de Chagas. Javier Sancho, coordenador da entidade, ratifica a importância da data para a sensibilização de profissionais de saúde, governos e, principalmente, da sociedade civil a respeito da enfermidade.

“São 65 milhões de pessoas em risco de contrair a doença em todo o mundo, segundo dados da OMS. Muitas estão infectadas e nem sabem. Só chegam ao serviço de saúde quando atingem a fase crônica da enfermidade e apresentam cardiopatias ou complicações digestivas. São notificadas e diagnosticadas, portanto, pela consequência e não pela causa”, completa.

Consultor regional de advocacy da DNDi, também catalisadora de esforços em prol do dia mundial e do combate à doença de Chagas, Francisco Viegas afirma que a inclusão de 14 de abril no calendário global de saúde pode potencializar investimentos em pesquisa e desenvolvimento e trazer esperanças de tratamentos mais eficazes para os pacientes.

“É mais uma oportunidade para a DNDi e os demais envolvidos no combate à doença de Chagas conscientizarem governos e tomadores de decisão sobre a necessidade de se obter tratamentos mais curtos, com menos efeitos colaterais e que privilegiem a qualidade de vida do paciente”, conclui. 

*GALEANO, Eduardo. Chagas, una tragédia silenciosa – Médicos Sem Fronteiras. Editora Losada, 2005.

**Dados da OMS (2010)