BrazMedChem leva debates sobre pesquisa de medicamentos a Goiás

Rio de Janeiro – 11 de setembro de 2019

Cerca de 350 especialistas em Química Medicinal de todo o mundo reuniram-se, entre os dias 1 e 4 de setembro, em Pirenópolis (GO), para a 9ª edição do BrazMedChem (Simpósio Brasileiro de Química Medicinal).

Com o tema “Reduzindo o espaço entre a academia e as indústrias farmacêuticas para avançar na descoberta de fármacos”, o evento apresentou iniciativas de centros de pesquisa públicos, privados e do terceiro setor voltadas ao desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas, raras, cardiovasculares, crônicas, entre outras. A palestra de abertura coube a Peter Warner, representante da Fundação Bill e Melinda Gates, que apresentou um panorama dos projetos da instituição para o tratamento da tuberculose, malária e das filarioses.

 

Redes de colaboração para drug discovery

Já no primeiro dia de conferências, o gerente de P&D para América Latina, Jadel Kratz, levou ao BrazMedChem o modelo da DNDi para descoberta de medicamentos, destacando a relevância das parcerias público-privadas para a condução do trabalho de pesquisa e otimização de compostos.

Além disso, o pesquisador detalhou a evolução de série química voltada para leishmaniose visceral – uma parceria da DNDi com a Universidade da Antuérpia (Bélgica), os laboratórios Pfizer e Takeda, entre outros integrantes. 

“Após a etapa de lead optimization, chegamos à nomeação de um candidato pré-clínico, que passará por uma nova fase de testes e poderá trazer resultados até o fim deste ano”, explicou Jadel.

No mesmo painel, o professor da Universidade de Toronto e representante do Structural Genomics Consortium (SGC), Aled Edwards, defendeu maiores investimentos em ciência aberta, sem patentes, para acelerar resultados em drug discovery. Como exemplo, Edwards mencionou o projeto coordenado por DNDi, Eurofarma, Unicamp e pela faculdade canadense também voltado para leishmaniose.

“Existe um verdadeiro comprometimento com a open science, o que é muito gratificante, pois estas informações não deveriam estar presas em laboratório”, completa.

As redes de colaboração voltaram à pauta no segundo dia BrazMedChem, durante a mesa-redonda “Repensando a estrutura acadêmica para drug discovery” (“Rethinking academia facilities to drug discovery”). Glaucius Oliva, professor da Universidade de São Paulo e parceiro da DNDi no projeto LOLA (Lead Optimization Latin América), falou sobre os esforços conjuntos para a identificação de inibidores e desenvolvimento de leads antivirais para o Zika. O pesquisador também apresentou o CIB-Far, rede de laboratórios financiada pela Fapesp que desenvolve NCEs com alto potencial de inovação.

“A ideia não é apenas agregar competências e conhecimentos científicos sólidos em áreas de interesse, mas também fomentar a integração de abordagens modernas em biodiversidade e descoberta de fármacos”, explicou.

 

Divulgação científica

Se o título do 9º BrazMedChem reflete sobre a aproximação dos setores público e privado para acelerar a produção de conhecimento, a construção da ponte entre ciência e sociedade também mobilizou debates ao longo do evento. Flavio Emery, presidente da Comissão Científica do BrazMedChem e professor da USP, lembra que a ideia-chave de qualquer evento científico é exatamente apresentar ao público todo o trabalho que é desenvolvido, às vezes ao longo de anos, nos mais diversos segmentos de pesquisa.

“E por que pesquisas sobre novos fármacos são importantes para nós, enquanto país? Porque precisamos criar autonomia tecnológica numa área que ainda temos deficiência. E com um único fim: o paciente”, explica.

Ainda segundo Emery, os atravessamentos na comunicação entre o campo científico e diversos setores sociais advêm do fato de que a história da produção de Ciência no Brasil é relativamente recente.

“Até a metade dos anos 2000, nosso objetivo era fazer a ciência crescer e consolidá-la no país. Nossa meta era quantitativa: ia desde a construção de uma base tecnológica até a formação de capital humano. A partir disso, começamos a apostar na internacionalização, o que já trouxe um avanço enorme. Permanece um desafio, entretanto, comunicar sobre algo que ainda está em evolução”, pondera.

 

Mulheres na ciência e visita de estudantes  

As pesquisadoras Vanderlan Bolzani (USP), Gunda Georg (Journal of Medicinal Chemistry), Sylvie Garneau-Tsodikova (Universidade do Kentucky/EUA) e Maria Cristina Nonato (USP/Ribeirão Preto) debateram sobre a participação ainda incipiente das mulheres na ciência na sessão interativa “Women in Science, Women in Chemistry: why so few?”, realizada no segundo dia do BrazMedChem.

Enquanto me preparava para esta fala, descobri que as mulheres compõem apenas 20% do setor de Química Medicinal”, surpreendeu Bolzani.

Ao partilharem suas trajetórias enquanto acadêmicas, as palestrantes concordaram que a ascensão efetiva da mulher em certos campos resvala na mudança do próprio estereótipo do cientista.

“Perdura, no imaginário social, a imagem de um cientista homem, de cabelos brancos, usando jaleco e óculos”, pontuou Tsodikova, “na minha faculdade, não havia nenhuma mulher professora”.  

O assunto retornou ao debate no último dia do evento, quando Carolina Horta Andrade, professora da Faculdade de Farmácia da UFG e organizadora do BrazMedChem, falou aos alunos do Ensino Médio do Colégio Estadual Comendador Christovam de Oliveira sobre a importância de se incentivar a entrada de meninas da Ciência.

“Mais do que nunca, é preciso dizer que a sociedade precisa do conhecimento científico para avançar. Devemos, então, mudar esta ideia sobre quem pode ou não pode fazer ciência, incentivando a entrada e a permanência de cada vez mais meninas (e meninos) nas universidades e centros de pesquisa”, defendeu.