Doença de Chagas: chegou o momento de acabar com 110 anos de invisibilidade

Rio de Janeiro – 11 de abril de 2019

As pessoas afetadas pela doença de Chagas lançam campanha para que 14 de abril seja reconhecido como Dia Mundial de Chagas e aumente sensibilização sobre esta doença negligenciada

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A Federação Internacional de Associações de Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas (FINDECHAGAS) lançou campanha na plataforma change.org para recolher assinaturas em apoio ao reconhecimento oficial de 14 de abril como seu dia mundial. A proposta será submetida a votação na 72ª Assembleia Mundial da Saúde, que ocorrerá em maio, na cidade de Genebra (Suiça). A FINDECHAGAS indicou 14 de abril como o dia mundial das pessoas afetadas pela doença de Chagas porque esta é a data em que, há 110 anos o médico brasileiro Carlos Chagas realizou o primeiro diagnóstico da enfermidade na menina Berenice Soares.

Oficializar este dia no calendário mundial contribuirá para dar visibilidade a uma complexa problemática de saúde, incluída na lista das doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um dos objetivos principais é chamar a atenção dos governos e dos tomadores de decisão sobre a necessidade de se levar adiante políticas efetivas e sustentáveis que permitam superar as diversas barreiras de acesso, diagnóstico e tratamento à doença, bem como dar visibilidade à estigmatização e à discriminação que sofrem as pessoas afetadas.

“Desde o descobrimento da enfermidade até os dias atuais, as pessoas que vivem com Chagas vêm sofrendo de maneira anônima e invisível”, afirmou Elvira Hernández, da Associação Mexicana de Pessoas Afetadas pela doença de Chagas, que ocupa atualmente a presidência da FINDECHAGAS.

Para compreender a magnitude e o alcance desta problemática, deve-se destacar que ao menos oito milhões de pessoas têm Chagas em todo o mundo. A doença atinge especialmente a América Latina, mas também registra casos nos Estados Unidos, Canadá, Europa e na região do Pacífico Ocidental. Atualmente, estima-se que a população em risco chega a 65 milhões. Entretanto, a maioria das pessoas afetadas não tem acesso a diagnóstico, acompanhamento e tratamento integral nas diferentes fases da doença.

A doença de Chagas é transmitida originalmente pelas fezes de um inseto vetor, cujo nome varia de acordo com a região: no Brasil, é conhecido como barbeiro, mas em outros locais recebe nomes como vinchuca, chinche, pito, entre outros. Todos podem portar o parasita Trypanosoma cruzi, causador da enfermidade. As outras vias de transmissão são por ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o parasita, na gravidez ou no parto (quando a infecção pode passar de mãe para filho), doação de sangue e derivados ou transplante de órgãos.

Mesmo com a prevalência em algumas regiões e o risco de graves complicações cardíacas e digestivas, que ocorrem em 30% dos casos, a doença de Chagas não vem recebendo atenção suficiente na agenda de saúde pública mundial e nos países afetados. Os dois únicos medicamentos existentes, Benznidazol e Nifurtimox, foram desenvolvidos há quase meio século. Ambos são eficazes principalmente na infância e em estágios iniciais da enfermidade. No caso de mulheres em idade fértil, podem prevenir a transmissão congênita.

Embora tenham a efetividade reduzida em adultos, os tratamentos contra o parasita e contra as infecções relacionadas à doença podem melhorar consideravelmente a qualidade de vida dos afetados. Estudos recentes, liderados pela DNDi (iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, na sigla em inglês), sugerem que tratamentos de curta duração seriam igualmente eficazes, o que é uma boa notícia no que diz respeito à acessibilidade. Entretanto, ainda são necessários maiores investimentos em pesquisa, acesso e distribuição em diversos países.

“Após um século de invisibilidade, é chegado o momento de romper o silêncio e a obscuridade que rodeiam as pessoas que têm a doença de Chagas. Um dia mundial é a oportunidade de nos colocarmos de pé e tomarmos a palavra. É a hora de sermos escutados, pois temos muito o que dizer. Pedimos às pessoas que nos apoiam para assinarem a favor da declaração do dia 14 de abril como nosso Dia Mundial. Também pedimos aos governos que nos apoiem durante a Assembleia Mundial da Saúde”, concluiu Elvira Hernández, em nome de FINDECHAGAS.

Esta iniciativa tem o apoio de diversas organizações internacionais, entre elas DNDi e Médicos Sem Fronteiras.

 

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Marcela Dobarro
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