COVID-19: especialistas publicam o primeiro conjunto de recomendações sanitárias específicas para pessoas que vivem com a doença de Chagas

Genebra/Rio de Janeiro – 13 de outubro de 2020 – Um grupo de especialistas publicou o primeiro conjunto de recomendações sanitárias relacionadas à COVID-19 para as milhões de pessoas que vivem com a doença de Chagas. Seis milhões de pessoas são afetadas por Chagas, uma doença que afeta o coração e outros órgãos. Elas já enfrentavam desafios significativos no acesso a serviços de saúde mesmo antes da pandemia e agora, com a COVID-19, estão sujeitas a riscos ainda maiores.

Entendendo que a doença de Chagas causa, entre outras, complicações cardíacas e gastrointestinais que podem aumentar a suscetibilidade à COVID-19, especialistas em Chagas e em doenças relacionadas ao coração de todas as partes do mundo se reuniram para elaborar as melhores orientações disponíveis para os prestadores de serviços de saúde. As recomendações, que incluem testes e possíveis interações entre medicamentos, serão publicadas no começo de outubro na Global Heart.

“A COVID-19 afeta de maneira desproporcional os mais vulneráveis, seja por questões socioeconômicas, idade ou problemas de saúde subjacentes. Agora, os pacientes enfrentam duas ou três vezes mais dificuldades, visto que muitos já estão à margem e sofrem com doenças tropicais negligenciadas como a doença de Chagas, que impõe desafios médicos que merecem nossa atenção e recursos tanto quando qualquer outra”, afirma Fausto Pinto, presidente eleito da Federação Mundial do Coração e um dos autores do artigo.

Causada pelo parasita Trypanosoma cruzi (T. cruzi), a doença de Chagas (DC) pode levar a problemas multifuncionais aos sistemas digestivo e nervoso e ao coração. Mais de um milhão de pessoas sofrem de cardiomiopatia chagásica crônica, que reduz a função bombeadora de sangue do coração e leva à insuficiência cardíaca, geralmente causando danos irreversíveis. Endêmica na América Latina, a doença tem uma longa fase assintomática, por isso muitas pessoas não sabem que estão infectadas.

Doenças como Chagas já eram negligenciadas antes do coronavírus. Agora, novos desafios são impostos à luta contra esta e outras doenças negligenciadas devido ao destino de recursos para a luta contra a pandemia, a pressão sobre centros de saúde, o medo dos pacientes de contrair COVID-19 nas clínicas e o conhecimento limitado que se tem sobre a interação entre as doenças e os medicamentos usados no tratamento.

“A situação atual expõe ainda mais a desigualdade existente no acesso a serviços de saúde e exige soluções sanitárias que sejam melhores para todos os pacientes. A pandemia afeta a administração de tratamento para pessoas com doença de Chagas aguda ou crônica, e os pacientes que sofrem de cardiomiopatia necessitam de considerações especiais devido ao impacto que a COVID-19 pode ter no coração. As recomendações para os profissionais de saúde delineiam o que fazer para proteger todos os pacientes com Chagas além de otimizar o atendimento àqueles afetados diretamente pela COVID-19”, explica Sergio Sosa-Estani, diretor da área de Chagas na DNDi e outro autor do artigo.

Tanto no caso da cardiomiopatia chagásica crônica quanto no da COVID-19, a resposta imunológica inflamatória e as comorbidades frequentes aumentam os fatores de risco nos pacientes. Entre as questões que precisam ser estudadas mais a fundo estão os vínculos entre as inflamações causadas pelas duas doenças e se a resposta imunológica à COVID-19 pode agravar ou reativar a doença de Chagas. Este artigo documenta, com base nos dados disponíveis, orientações importantes e informações relativas à aplicação de diferentes medicamentos e suas interações com as duas doenças. Também foram incluídas recomendações para controle e testes de pessoas com diferentes manifestações da doença de Chagas, mulheres grávidas e pessoas com comprometimento do sistema imunológico.

A COVID-19 e a doença de Chagas têm mais em comum do que interações médicas e processos biológicos: ambas afetam as populações mais vulneráveis e dão margem a perguntas urgentes sobre o acesso universal a serviços de saúde.

Além de apresentarem abordagens médicas e recomendações para pacientes de Chagas com COVID-19, os autores do artigo também pedem ações coordenadas para o enfrentamento das doenças negligenciadas. Ao ressaltarem as lacunas e necessidades na compreensão das interações entre a COVID-19 e a doença de Chagas, os autores esperam estimular a pesquisa e o investimento em saúde pública e, assim, tirar das sombras estas doenças que já foram ignoradas tempo demais.

Notas para os editores:

Contexto do artigo publicado: Em 30 de março de 2020, a Sociedade Interamericana de Cardiologia (IASC) e a Federação Mundial do Coração publicaram um Roteiro sobre a doença de Chagas com um panorama abrangente da doença de Chagas (DC) e os passos para melhorar o acesso à saúde. Em abril de 2020, a Plataforma de Pesquisa da Doença de Chagas da iniciativa Medicamentos para Doenças Negligencias (DNDi) reuniu alguns dos autores do roteiro sobre a doença de Chagas e outros especialistas, incluindo diversos membros da Coalizão de Chagas, que criou um recurso de perguntas e respostas, para explorar os impactos da COVID-19 nos pacientes com DC. Alguns dos autores do roteiro têm trabalhado na linha de frente da luta contra a pandemia, administrando tratamentos ou explorando novas opções.

A doença de Chagas é uma doença tropical negligenciada causada por um grupo de parasitas chamado Trypanosoma cruzi (T. cruzi). Descoberta há mais de 100 anos, a doença continua afetando mais de seis milhões de milhões de pessoas em todo o mundo e é um dos problemas de saúde pública mais prevalentes na América Latina. Se não for tratada, a doença de Chagas pode causar danos irreversíveis ao coração e outros órgãos vitais.

A Federação Mundial do Coração (World Heart Federation, WHF) reúne a comunidade cardiovascular e comanda a agenda pela redução do fardo global das doenças cardiovasculares e para que as pessoas vivam mais tempo e mais saudáveis. Trabalhamos com nossos membros para pôr um fim às mortes desnecessárias e construir um compromisso global pela melhoria da saúde cardiovascular em nível global, regional, nacional e comunitário. Acreditamos em um mundo no qual a saúde cardíaca para todos seja um direito humano fundamental.

Visite www.worldheart.org para saber mais.

A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) é uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) orientada para o paciente e dedicada a oferecer tratamentos seguros, eficazes e acessíveis para milhões de pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade e são afetadas por doenças negligenciadas, especialmente doença de Chagas, leishmanioses, doença do sono, HIV pediátrico, hepatite C, infecções por filárias e micetoma.

 

Contatos de imprensa:

Mihela Kralj, gerente de comunicações da WHF, mihela.kralj@worldheart.org

Marcela Dobarro, gerente de comunicações regional da DNDi, mdobarro@dndi.org