“Através do projeto LOLA, acumulei conhecimentos em todas as etapas de descoberta de fármacos, trabalhei com profissionais reconhecidos globalmente e tive a oportunidade de passar um ano em doutorado sanduíche na Escócia”

Confira entrevista com Rafael Ferreira, que participou do programa de Drug Discovery da DNDi América Latina 

14 de maio de 2021 – Quando criança, um dos passatempos favoritos de Rafael Ferreira era desmontar seus brinquedos para examinar cada engrenagem dos artefatos. O espírito curioso o levou cedo à ciência: ainda na adolescência, ingressou no curso de química da Escola Técnica de Paulínia, no interior de São Paulo. Mais tarde, enquanto concluía a graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), teve a chance de explorar o mundo das nanopartículas em um intercâmbio na Illinois State University, nos Estados Unidos.  

Entretanto, foram os desafios do desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas que nortearam sua vida acadêmicaEm 2016, passou a fazer parte do Programa de Otimização de Compostos Líderes da América Latina (LOLA, pela sigla em inglês), onde trabalhou com a otimização de moléculas para doença de Chagas. Em entrevista à DNDi, o agora recém-doutor Rafael analisa o impacto do projeto em sua trajetória profissional, destacando a relevância das colaborações internacionais para acelerar pesquisas científicas e fortalecer as capacidades de produção de conhecimento na região.  

Como você conheceu o projeto LOLA?  

Descobri o LOLA alguns anos antes de propriamente integrar o time. Ao longo de meu primeiro intercâmbio nos Estados Unidos, entendi que era possível atrelar a pesquisa à experiência de mercado, aplicando os conhecimentos adquiridos na graduação e no curso técnico. Quando retornei ao Brasil, decidi explorar a área de química orgânica, que sempre me interessou não só pelos aspectos científicos, mas pela função social. Procurei o professor Luiz Carlos Dias [docente do Instituto de Química da Unicamp e parceiro da DNDi nos projetos de Drug Discovery] na intenção de ingressar no mestrado. Comecei a estudar descoberta de fármacos ele me apresentou as colaborações no âmbito do LOLA, das quais me aproximei de maneira mais definitiva no doutorado.  

Já tinha familiaridade com as doenças negligenciadas? 

Por vivermos em um país endêmico, conheci algumas das doenças negligenciadas na educação básica. Mas não entendia muito bem o problema social – populações afetadas e dificuldade dos tratamentos -, simplesmente as via como enfermidades para as quais não havia cura. Aprendi muito sobre as questões de Saúde Pública com o professor Luiz Carlos, e também com o professor Adriano Andricopulo [docente da Universidade de São Paulo (USP), outro parceiro da DNDi], principalmente sobre a doença de Chagas, que foi meu tema de estudo.   

Como foi experiência dentro do projeto?  

O LOLA é uma estrutura múltipla: ele vai além do grupo de pesquisa e do trabalho laboratorial isolado. Foi uma grande oportunidade de capacitação, pois tive contato com todas as etapas da descoberta de fármacos, desde o planejamento dos compostos até a análise dos dados, atuando lado a lado com investigadores renomados da áreaA partir do trabalho com doença de Chagas no projeto, fui selecionado pela Universidade de Dundee, na Escócia, para um período sanduíche. A instituição buscava um candidato pré-clínico para a enfermidade e tinha interesse em receber pesquisadores que pudessem aplicar os conhecimentos lá adquiridos em países endêmicos. Durante um ano, pude expandir minha expertise em síntese medicinal e ainda aprender sobre química computacional 

Desde sua fundação, a DNDi defende uma estratégia de P&D baseada na colaboração de comunidade científica, instituições públicas, indústria, sociedade civil, entre outros setores. Qual é a importância desses modelos interdisciplinares de investigação para o progresso da ciência e a expansão de capacidades de pesquisa em países endêmicos? Como eles podem acelerar a descoberta de novos medicamentos para doenças negligenciadas? 

O que motivou meu ingresso no LOLA foi exatamente a possibilidade de participar de uma rede onde coexistem empresas, universidades e outras instituições de pesquisa. Se tentarmos fazer pesquisa de descoberta de fármacos sozinhos, não vai dar certo. São muitas etapas, e seria impossível abarcar todas em apenas um lugarA partir de modelos colaborativos, há a oportunidade de desenvolver o maior número de testes com maior qualidade de resultadosÀs vezes temos a visão que algo funciona de uma forma e, a partir de uma conversa com nosso companheiro de trabalho, percebemos que há muito mais a aprender. Parcerias conectam pessoas, proporcionam trocas, fazem surgir pontos e contrapontos, ampliando a capacidade de produção de conhecimento local