Os resultados do ensaio BENDITA e os próximos passos para a avaliação de novos tratamentos

Os resultados do ensaio BENDITA foram publicados em abril de 2021 no Lancet Infectious Diseases. O ensaio de validação de conceito de Fase II, duplo-cego e duplo-placebo, patrocinado pela DNDi e realizado em vários centros no âmbito da Plataforma Boliviana para o Tratamento Integral da doença de Chagas, que é apoiada pela Fundação Ciência e Estudos Aplicados para o Desenvolvimento em Saúde e Meio Ambiente (CEADES) e pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), avaliou tratamentos mais curtos e intermitentes com benznidazol (BZN), tanto como terapia única quanto em combinação com fosravuconazol (E1224), em 210 participantes com a forma crônica e indeterminada da doença de Chagas. Os participantes foram organizados de maneira aleatória em sete grupos: 300 mg do BZN diariamente por 2, 4 ou 8 semanas; 150 mg de BZN diariamente por 4 semanas, como monoterapia ou em combinação com fosravuconazol; 300 mg de BZN semanalmente com fosravuconazol for 8 semanas; ou placebo. O ponto final primário era a eliminação parasitológica sustentada quando do acompanhamento aos 6 meses e a incidência/gravidade dos eventos adversos, incluindo eventos adversos graves e que causassem a descontinuação do tratamento. O acompanhamento foi estendido para 12 meses.

Em todos os braços do tratamento, a eficácia medida pela eliminação parasitológica sustentada ultrapassou ou foi alta aos 6 meses (83-89%) na população com intenção de tratamento, com pequena queda aos 12 meses (78-89%). No geral, houve 15 eventos adversos que levaram à descontinuação permanente do tratamento, mas não houve eventos sérios ou graves ou que causassem a descontinuação do tratamento no grupo que recebeu 300 mg de benznidazol diariamente por 2 semanas. Este resultado é muito animador, já que a redução do tratamento dos atuais 60 dias para 2 semanas, com a redução concomitante dos efeitos colaterais, tornaria maisfácil a adesão dos pacientes e simplificaria o gerenciamento clínico para as equipes de saúde.

Desde meados de 2020, a DNDi, junto com os parceiros Fundação Mundo Sano e ELEA-Phoenix, vem conduzindo o desenvolvimento de um novo estudo para confirmar os resultados promissores do braço de 300 mg diários por 2 semanas do BENDITA. O NuestroBen (Novo Esquema para Tratamento com
Benznidazol), um ensaio de Fase III aberto, de não inferioridade, prospectivo e controlado, tem por objetivo confirmar a eficácia e segurança de um tratamento de 300 mg diários por 2 semanas com benznidazol em pacientes adultos que vivem com a fase crônica da doença de Chagas e que não apresentam evidência
de patologia, em comparação ao tratamento padrão atual (de 8 semanas) baseado em controles históricos. O ensaio ocorrerá em seis centros na Argentina. Todas as autorizações já foram obtidas e o recrutamento já começou. A estimativa para a duração total do ensaio é de 21 meses.

Estudos em andamento enfatizarão outras questões, como por exemplo se o efeito antiparasitário observado no Bendita previne a transmissão congênita. Informações importantes serão fornecidas por vários ensaios que já estão em andamento ou estão em planejamento, incluindo o TESEO, que está sendo conduzido na Bolívia, o BETTY (descrito na edição de 2020 do boletim) e o Projeto CUIDA Chagas (abordado nesta edição), liderado pela
Fundação Oswaldo Cruz em consórcio com a FIND e o Ministérios da Saúde do Brasil, Bolívia e Colômbia e em colaboração com a DNDi. Mais pesquisas serão necessárias para avaliar se os outros benefícios clínicos do tratamento padrão atual, como a redução das taxas de insuficiência cardíaca e mortalidade observadas nos pacientes tratados em vários estudos longitudinais, ou a cura serológica de infecções agudas, também podem ser obtidas pelos regimes de tratamento alternativos. 

Tayná Marques, Colin Forsyth e Fabiana Barreira, DNDi

Este artigo foi publicado originalmente no Informativo da Plataforma de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas