DNDi e Fiocruz firmam parceria para pesquisa e tratamento da dengue

Representantes das duas instituições ainda assinaram uma aliança estratégica para doenças negligenciadas e anunciaram a submissão conjunta de projeto à Finep

Rio de Janeiro – 04 de abril de 2022** – A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinaram, na última terça-feira (29), memorando de entendimento para pesquisa e tratamento da dengue. As duas instituições também selaram uma aliança estratégica de pesquisa e submeteram um projeto conjunto ao Edital Finep para Doenças Negligenciadas.

No encontro, o diretor global de Pesquisa e Desenvolvimento da DNDi, Laurent Fraisse, o presidente da iniciativa na América Latina, Michel Lotrowska, e o diretor executivo regional da DNDi na América Latina, Sergio Sosa-Estani, foram recebidos pela presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, que enalteceu a cooperação histórica entre as duas instituições. 

 

Foto: Peter Ilicciev/Agência Fiocruz

“Formalizar essa aliança é importante não apenas pelo memorando de entendimento, porque consolida todo um percurso de projetos em comum e nos permitirá pensar um plano estratégico para o futuro, a respeito de doenças e populações negligenciadas”, destacou a presidente.

Em seu discurso, Laurent Fraisse também celebrou os avanços. “Temos o desejo de privilegiar nossos melhores parceiros. Com a Fiocruz, esse era o caso antes, o é hoje, e o será para o futuro. Queremos trazer nossa energia para contribuir com essa instituição de tanta capacidade, e elevar a parceria a um nível estratégico”. O diretor global de P&D da DNDi também lembrou as reuniões que teve com os vice-presidentes da Fiocruz Rodrigo Correa (Pesquisa e Coleções Biológicas) e Marco Krieger (Produção e Inovação em Saúde), também presentes na residência ificial. “Foram conversas muito produtivas a respeito de doenças como a de Chagas e as leishmanioses. E avançamos em relação a pesquisas para enfrentar a dengue, um novo projeto da DNDi”, contou.

 

Memorando de entendimento para dengue

O memorando de entendimento ocorre no âmbito de uma parceria global de pesquisa para encontrar tratamento para dengue, coordenada pela DNDi, que envolve instituições da Índia, Tailândia e Malásia. A organização também quer incluir instituições de países africanos, como República Democrática do Congo e Gana, para realizar mais estudos epidemiológicos. A Fiocruz tem um papel central nessa rede pela amplitude de suas atividades.

Globalmente, o número de casos incidentes de dengue aumentou em 85% de 1990 a 2019. Prevê-se que o aumento das temperaturas ligadas às mudanças climáticas torne ainda maior esse índice, podendo alcançar 60% da população mundial até 2080. A busca de uma abordagem ampla para o enfrentamento da dengue deve incluir também diagnóstico e vacinas.

O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde, Marco Krieger, valorizou essa nova frente de atuação. “Fazíamos a defesa dessa iniciativa antes mesmo da pandemia. Ela agrega a projetos que já tivemos, como na doença de Chagas, leishmaniose e malária, uma linha endêmica tematicamente importante para a região da América Latina”.

 

Aliança estratégica

Durante o encontro, as instituições também firmaram uma aliança estratégica para fortalecer o relacionamento existente por meio do estabelecimento de um Comitê Estratégico Conjunto para supervisionar todas as colaborações presentes e futuras, que se dão em diferentes áreas de pesquisa e desenvolvimento, advocacy e programas de acesso a múltiplas doenças infecciosas. Até 2028, DNDi e Fiocruz esperam contribuir para fortalecer as capacidades na região da América Latina e garantir que medicamentos novos, eficazes, seguros e acessíveis sejam desenvolvidos e entregues a pacientes negligenciados. Os próximos passos envolvem a criação de um grupo de trabalho para desenvolver o processo, pela definição da estrutura e governança, e a identificação de áreas potenciais, nos âmbitos da pesquisa e desenvolvimento, pesquisa de implementação, produção em Chagas, leishmaniose, HCV, dengue e HIV pediátrico.

Vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa projetou a parceria, que terá, segundo ele, muito a ganhar com a troca de informações e experiências. “Há, inclusive, interesse da DNDi de utilizar a rede Fiocruz de biobancos”, contou. “Que possamos ampliar cada vez essa parceria”. Jorge Mendonça, diretor do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), por sua vez, revelou que há a previsão, como fruto da parceria com a DNDi, de trazer para o Brasil um tratamento de hepatite C. “O próximo passo é apresentar a documentação para a [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] Anvisa”.  A aliança ainda permitirá, segundo ele, incorporar de forma estratégica diagnóstico e tratamentos: “a diminuição do tempo entre o diagnóstico e a chegada do medicamento será muito importante para o sistema de saúde”.

Outra frente dessa aliança, destacada por Sergio Sosa Estani, diretor executivo regional da DNDi na América Latina, é a área de advocacy. “Para poder desenvolver planos de ação, necessitamos de um ambiente de parceria”, explicou. Otimizar esse ambiente também contempla a ação específica de advocacy, para nos aproximar de atores-chave”.

 

Projetos para doenças negligenciadas

A DNDi e a Fiocruz submeteram projeto conjunto ao edital da Finep de fomento à pesquisa, desenvolvimento e inovação em Doenças Negligenciadas, Tropicais e transmitidas por vetores e outras doenças. O projeto “Acelerando o desenvolvimento pré-clínico e clínico de tratamentos para a dengue através do reposicionamento de medicamentos” tem como objetivo construir as bases pré-clínicas e translacionais necessárias para o início da avaliação clínica de medicamentos reposicionados de uso precoce, que previnam o surgimento e/ou reduzam a duração dos sintomas, e evitem a progressão para a forma grave da doença.

Espera-se, a partir da iniciativa, validar e selecionar ao menos um candidato clínico (idealmente uma combinação de um agente antiviral e um anti-inflamatório ou antiplaquetário) e preparar as etapas regulatórias necessárias para submissão de estudo clínico de fase II no Brasil visando o desenvolvimento clínico e aprovação de um novo tratamento para dengue.

O projeto foi selecionado entre mais de cinquenta outros. Para estes, Krieger relatou que há o plano, como uma das primeiras ações da aliança estratégica, de elaborar uma chamada de forma conjunta com a DNDi. “Seria uma iniciativa adicional para tentar contemplar esses dois grandes núcleos, desenvolvimento de diagnósticos em doenças negligenciadas e avaliação de reposicionamento de fármacos”.

 

**Com a colaboração de Ciro Oiticica, da Agência Fiocruz