Novas recomendações para o tratamento das leishmanioses nas Américas

BRASIL – 30 DE JUNHO DE 2022 – A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) celebra a publicação das novas recomendações para o tratamento da leishmaniose nas Américas pela Organização Pan Americana da Saúde (OPAS).

A leishmaniose é uma doença tropical negligenciada, endêmica em 20 países da América Latina, que registra em média cerca de 53.000 novos casos por ano da forma cutânea e mucosa e 3.400 da manifestação visceral, ambas consideradas um sério problema de saúde pública para a região.  Transmitida pela picada de insetos flebotomíneos infectados com o parasita Leishmania, suas manifestações variam de lesões ulceradas únicas ou múltiplas na pele que podem causar mutilações e estigma social até doenças viscerais com manifestações graves, podendo ser fatal sem tratamento.

Devido aos desafios particulares e a dimensão da infecção da leishmaniose, as novas diretrizes consideram as evidências disponíveis na região com o objetivo de oferecer recomendações e fortalecer os sistemas locais para o tratamento da doença em suas diversas formas clínicas.

“Os Ministérios de Saúde, através de suas respectivas áreas técnicas e com apoio de especialistas locais, deverão revisar as recomendações no contexto nacional e verificar a possibilidade de incorporar, garantir e expandir o acesso dos pacientes ao tratamento das leishmanioses com o uso de alternativas terapêuticas mais seguras e de duração mais curta”, esclarece Ana Nilce Silveira Maia-Elkhoury, assessora regional para leishmaniose da OPAS. 

Para o tratamento da leishmaniose visceral (LV), as novas diretrizes incorporam agora a anfotericina B lipossomal como forte recomendação sobre o uso de antimoniais pentavalentes. A recomendação sugere um tratamento mais acessível para as pessoas, por ser de menor duração, com menos efeitos colaterais e com uma redução no tempo de internação.

A mudança no tratamento de primeira linha se baseia nas eficácias geradas através de um estudo colaborativo patrocinado pelo Ministério da Saúde do Brasil e coordenado pela Universidade de Brasília (UnB), a fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a DNDi, que avaliou a eficácia e segurança de diversas opções de tratamento em comparação com o tratamento padrão, baseado no uso de antimoniais.

O estudo LV Brasil  reuniu o trabalho em cooperação da Universidade Federal do Piauí, a Universidade Estadual de Montes Claros, a Universidade Federal de Sergipe, o Hospital Infantil João Paulo II – Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais e o Hospital São José de Doenças Infecciosas, de Fortaleza.

Contudo, para que esta recomendação seja adotada integralmente no Brasil, o país com a maior quantidade de casos de LV nas Américas, é preciso fazer avanços com esforços coordenados para enfrentar problemas atuais de abastecimento de medicamentos, que tem afetado o acesso das pessoas ao tratamento. 

Para a leishmaniose cutânea (LC), as novas orientações recomendam, para pacientes com 1 a 3 lesões com diâmetro ≤3 cm, o uso intralesional de antimoniais (recomendação forte) ou termoterapia (recomendação condicional). Para pacientes que requerem o tratamento sistêmico, a recomendação é o uso de miltefosina (recomendação forte) ou pentamidina (recomendação condicional e somente para pacientes com lesões causadas por L. guyanensis).

Segundo Joelle Rode, gerente clínica de leishmaniose da DNDi América Latina, “estas recomendações vão de mãos dadas com a estratégia da DNDi, que tem promovido a necessidade de substituir os antimoniais como primeira opção de tratamento e recomendar a miltefosina em seu lugar, seja como a única terapia ou combinada com terapias locais, que são mais seguras para os pacientes e menos onerosas para os sistemas de saúde.”

Além dos principais fatores de risco resultantes dos processos sociais, econômicos e ambientais, que favorecem a transmissão da leishmaniose e dificultam seu controle, os pacientes em tratamento sofrem os graves efeitos colaterais dos medicamentos. A doença também produz efeitos devastadores nas comunidades, incluindo dificuldades de trabalho, perdas econômicas e estigma social em populações que já vivem com recursos limitados.

As necessidades destas populações negligenciadas orientam a estratégia da DNDi, que, em colaboração com os países da região, gera evidências sobre a segurança e efetividade dos tratamentos em pacientes de leishmaniose visceral (LV) e cutânea (LC), visando melhorar as opções de tratamento existentes. Atualmente, estamos estudando uma combinação de um tratamento oral com aplicação local de calor para LC em quatro países da região para confirmar os dados preliminares de nosso ensaio de Fase II no Peru e na Colômbia, que mostram resultados positivos combinando termoterapia e miltefosina em comparação com o tratamento apenas com termoterapia.

Ao mesmo tempo, a DNDi continua em busca de um novo tratamento oral que seja seguro, eficaz, de baixo custo e de curta duração para todas as pessoas afetadas, através de consórcios internacionais, multidisciplinares e inovadores como o programa de otimização de compostos líderes (leads) da América Latina (LOLA), o projeto de descoberta de fármacos para a leishmaniose baseado na estrutura do parasita (SBDD) e o projeto de pesquisa translacional para identificar novas ferramentas que possam ajudar no desenvolvimento clínico de moléculas ativas para a LC. Também estamos pesquisando o desenvolvimento de um “imunomodulador” capaz de estimular o sistema imunológico inato para combater os problemas causados pelos parasitas da LC. 

Através da aplicação de múltiplas estratégias e do desenvolvimento de capacidades da região das Américas, esperamos nos próximos anos identificar novos medicamentos para tratar as leishmanioses. Ao mesmo tempo, reivindicamos às autoridades sanitárias e regulatórias dos países da região a priorização das estratégias de aquisição de medicamentos e o processo de incorporação destas novas diretrizes de tratamento para garantir o acesso ao tratamento para a população mais vulnerável.

Sobre a DNDi

A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) é uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) orientada pelas necessidades dos pacientes. Com seus parceiros, a iniciativa desenvolve tratamentos seguros, eficazes e acessíveis para milhões de pessoas afetadas por doenças tropicais e virais negligenciadas. Algumas destas doenças que afetam de maneira desproporcional comunidades que já são vulneráveis e negligenciadas são a doença de Chagas, as leishmanioses, a doença do sono, o HIV pediátrico, a hepatite C, as filarioses e o micetoma. Até 2028, a DNDi planeja oferecer um total de 25 novos tratamentos nos primeirs 25 anos de existência.

 

Contatos de imprensa

Marcela Dobarro (América Latina)

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